O Caminho de Santiago de Compostela de Bike por Marcio Figueiredo

Por Marcio Figueiredo

Fazer o caminho requer primeiramente, uma razão forte, pois a cada parada reavivamos esta memoria para persistir no objetivo. Não olhe para o final. Pense sempre na próxima parada, ela é o alento para prosseguir. Minha razão era mistica… Depois de três cirurgias no rim, uma delas para retirar um tumor, achei que estava em divida com alguém e ai veio a ideia de conversar por 15 dias com quem manda la em cima.

A programação foi feita com base em minha resistência, lista de pousadas fornecida pela casa de Espanha e altimetria que consegui diretamente nos sites de Santiago de Compostela que são muitos. A ideia era pedalar em torno de 60 km por dia, que variaria conforme a relação altimetria distancia. Quanto maior a altimetria, menor a distancia.
Aonde começar definiu minha distancia, já que Santiago era meu objetivo final. Decidi por Saint Jean Pied de Port, por conta da história dos templários, Alias, este caminho foi percorrido pelos templários e guarda histórias e monumentos vivos riquíssimos desta época.

Caminho traçado totalizando 820km e 12500m de desnível a percorrer. Decidi fazer em 13 dias, com tres dias de paradas nas cidades de Pamplona, Burgos e Leon, por serem as mais representativas do percurso. Uma pena não ter tido mais tempo em Logrono, região de Rioja e dos melhores vinhos da Espanha.

A rotina seria pedalar pela manha, alimentar-se, caminhar pelas cidades por uns minutos e as 7/8 da noite estar de volta ao dormitório para descansar, arrumar os alforges e recomeçar o ciclo.
Quando se decide por fazer o caminho, a viagem é o caminho, pois cada parada representaria apenas, e tao somente, um ponto de descanso.

A decisão da data foi simples, o quanto antes!! Agendei para Junho, logo apos o aniversario da minha esposa e tempo suficiente para toda a preparação que durou 4 meses, sendo precedida pela ultima cirurgia no rim em fevereiro.
Ai entram outros players: WT e sua equipe para planejar o treinamento e recuperação de contusões e a Izabela Freitas que me ensinou a usar os suplementos para manter força e recuperar os músculos rápido entre um dia e outro.

Além de toda a preparação física, tem a preparação logística: Bicicleta, o que levar, voos, traslados, pontos de interesse, pontos de repouso, o que fazer em caso de problemas de saúde e problemas na bicicleta. O Voo me levaria a Madrid. Ate Pamplona iria de carro alugado. De Pamplona a Roncesvalles (local da primeira pousada) iria de onibus. Roncesvalles a Saint Jean Pied de Port, iria num bate e volta de bicicleta. 70km com 1500m de altimetria. Tudo certo. Fiquei em Roncesvalles por 2 dias, para me adaptar a bike e fazer o bate volta.

O Voo me levaria a Madrid e  eu iria ate Pamplona de carro alugado. De Pamplona a Roncesvalles (local da primeira pousada) iria de onibus. Roncesvalles a Saint Jean Pied de Port iria num bate e volta de bicicleta, 70km com 1500m de altimetria. Tudo certo. Fiquei em Roncesvalles por 2 dias, para me adaptar a bike e fazer o bate volta

Fiquei em Roncesvalles por 2 dias, para me adaptar a bike e fazer o bate volta. Aluguei a bike com a Tournride. Eles tem 3 tipos de bike, todas MTB. Acho que para o caminho, uma hibrida funcionaria melhor. Aluguei uma MTB aro 29 que me pareceu um pouco pesada. Pelo catalogo, tinha 12 kgs + 10 do alforge = 22kg. Comparados aos 7/8 kg que estava acostumado a pedalar todos os dias durante a preparação, era uma tremenda diferença.

Chegando a Roncesvalles, a Bike já estava lá me aguardando. Estava praticamente montada. Só mesmo pedais e selim, que trouxe os meus, que tive que instalar e acertar o guidão, além de instalar sensores de velocidade, a base do Garmin, lanternas e bolsas de ferramentas e comida.

A ida e volta a SJ Pied de Port foi realmente necessária e me deu uma prévia do que seria o caminho pela frente.

Roteiro:
Roncesvalles – SJ Pied de Port Roncesvalles – 70km – 1514m
Roncesvalles – Pamplona 45km – 486m
Pamplona – Estella 49km – 983m
Estella – Logrono 46km – 681m
Logrono – Sto Domingo de la Calzada 51km – 835m
Sto Domingo de la Calzada – Burgos 75km – 1046m
Burgos – Carrion de los Condes 86km – 841m
Carrion de los Condes – Leon 94km – 569m
Leon – Astorga 47km – 383m
Astorga – Ponferrada 54km – 855m
Ponferrada – Las Herrerias 42km – 634m
Las Herrerias – Sarria 54km – 1337m
Sarria – Melide 62km – 1237m
Melide – Santiago 59km – 1072m
Totais: 834km com 12473m de altimetria

Sai de Roncesvalles as 7:30 da manha. Faziam 8 graus. Roupa funcionando que era uma maravilha. Nada de sentir frio. Cheguei a SJPP por volta de 9hs. Perfeito, só que dos 1500m de altimetria, a maior parte foi ladeira abaixo. Tudo que desce… A volta foi um sofrimento total. Uma chuva torrencial encharcava a roupa e fazia com que ela pesasse 10kgs a mais. A água descendo a trilha era mais um obstaculo… Enfim, levei 4 horas para cumprir os 35 km de volta. Cheguei ao hotel de volta as 2 da tarde, completamente acabado.

Passei a respeitar o caminho…

 

O caminho parece vivo… Ele pulsa, desperta, adormece, se alimenta, chora, convive e liberta. Nossa apresentação foi sofrida e me mostrou que tinha que respeita-lo para termos uma convivência amena.

No dia seguinte, acordei consciente de dosar as energias e parar para descansos, mesmo tendo espaço para mais.
Sai de Roncesvalles com destino a Pamplona, minha primeira parada, após o café da manha.

Comecei a cronometrar algumas etapas que me perseguiriam durante todo o trajeto, mas que foram cruciais para não ter surpresas desagradáveis:

1. Banho e me arrumar
2. Arrumar a bolsa de comidas e suplementos do dia
3. Passar protetor solar
4. Passar creme anti assaduras
5. Shake de chocolate
6. Arrumar os alforges
7. ver o trajeto e estimar as horas de cada parada. a cada hora deveria parar para hidratação, comer alguma coisa, gels, proteínas, etc
8. Arrumar a bicicleta.
9. Tomar cafe da manha

 

 

Essa rotina levava 1 hora. Todas as 13 vezes. Portanto, se programava sair as 8, tinha que despertar as 7.
Amanhecia perto das 6:30 e as 14 o sol estava a 30 graus. Santos manguitos e pernitos que a qualquer hora podemos tirar. As noites caiam as 21:30. Portanto, melhor hora para pedalar, considerando 4 horas de pedal, e 60 km de percurso, era de 8 as 12. Sobrava tempo para tudo e quantas vezes fui dormir com o dia ainda claro. Esta matemática, funcionou perfeito.
As temperaturas oscilaram entre 14 graus pela manha e 32 a tarde. (1a quinzena de Junho). As vezes, o calor era um inconveniente nas pousadas. Somente uma dispunha de ar condicionado. As temperaturas começavam a baixar a partir das 2 da madrugada.

Frutas são abundantes. Cerejas inacreditavelmente doces e suculentas, maças, bananas, pêssegos, peras, laranjas, mandarinas, uvas. Comprava cachos de uvas, bananas e cerejas e ia me deliciando pelo caminho. A bolsa que vai a frente do guidão é fundamental para isso. Agua e uma tal de Aquarius. Tomei litros e litros dessa aquarius que é uma água soborizada, depois descobri que tinha conservante pra caramba… Argh.

Junho é época do trigo no Norte da Espanha, e o caminho serpenteia por entre os trigais. As vezes se torna monótono, as vezes duro demais e temos sempre a alternativa da estrada que segue paralela ao caminho e que leva o mesmo nome. Dos 820km percorridos, devo ter ido pelo asfalto uns 100km. Pela historia e beleza das cidades, muitos turistas fazem o trajeto de carro pela estrada, parando nas cidades principais e que atraem por sua arquitetura e pelos monumentos de mais de 800 anos. Quem faz o caminho, tem o prazer de ser contemplado com esta historia a cada parada ou passagem e viver a hospitalidade de quem é parte deste rito.

No caminho, aprendi que o homem tem jeito, e que a generosidade e entrega ainda fazem parte de sua natureza. Por diversas vezes fui ajudado em locais aonde as pedras soltas tornavam impossível a subida. Por diversas vezes, em paradas, indagava o preço e os donos diziam, a contribuição é opcional. Pao, água, cafe, vinho, eram itens obrigatórios em qualquer parada e por vezes, peregrinos ofertavam partes de sua refeição ou bebida. As vezes as trocas eram sempre presenteadas por uma boa conversa e desejos de sucesso no caminho.

Os preços são inacreditavelmente baratos, sanduíches enormes de parma com queijo, vinho e água, saia por 4 euros. O menu do peregrino que consiste em 2 pratos (carboidratos e proteínas) mais sobremesa, vinho e água, saia por 10 euros. A noite, costumava gastar um pouco mais e não passava de 15 euros. Cafe da manha, cafe com leite, suco, torradas, 3 a 4 euros.
Pelas manhas, a retomada do caminho era fascinante. Conseguia-se ver as pessoas vindo de todos os lados, todas as direções, desaguando em um só veio, que seguia na direção oeste… Era o caminho renascendo, todos os dias.

Ate os mais afoitos e instrospectivos se curvam… Em certa vez, pedalando em uma single trail, encontro um senhor… dou bom dia, peço licença e o senhor retruca: “Porque não tens uma buzinha (eles chamam timbre) ?” Ao que eu respondo, voce prefere uma buzinada ou um bom dia? Ele sorriu e respondeu: ” Voce não precisa de uma buzina… Buen camino…” Creio que isso fez o meu dia e o dele.

E varias são as estorias que podemos contar de cada dia.

A cada parada, os carimbos vão se multiplicando em seu livreto e fazendo perceber que o destino não era Santiago e sim descobrir que temos uma saida, uma missão, e estender a mão faz parte dela.

Quando percebemos isso, Santiago deixa de ser o fim e passa a ser mais uma parada ou uma passagem. É o caminho chegando ao fim e te entregando sabedoria e paz…

Buen camino a todos.