CRUCE 02: “Direto na prova”

Relato de José Luiz de Oliveira sobre sua participação no Cruce:

“Todos os relatos do que antecedeu a prova seriam inúteis visto que a zona que fizemos no credenciamento e os almoços e jantares regados à muita risada são os mesmos em qualquer prova que fazemos junto com a família WT, portanto, meu relato começa direto na prova.

DIA 1

O dia da largada começou bem cedo já que os ônibus estariam alinhados pra embarque para a área de largada as 6:00. Depois de pular da cama, trocar de roupa, café da manhã e etc, partimos rumo à fila de ônibus com a roupa de prova com a rua totalmente escura e chuvosa, onde uma multidão de atletas agasalhados caminhava pela manhã fria.

Depois de pouco mais de uma hora num trajeto cheio de neblina, chegamos enfim à área de largada, um lugar muito bonito a beira do lago de Todos los Santos. Devidamente posicionados no funil de largada e lá se vão os atletas de elite, entre eles os irmãos André e Filipe Meireles, e o frio na barriga só ia aumentando.

Chegou a nossa vez e partimos, o frio na barriga já tinha ficado pra trás e minha dupla alternava entre correr e filmar a galera com a paisagem de fundo,onde por enquanto todos sorriam bastante, como se ignorassem o que vinha pela frente.

Quase 4km no plano e já entramos num vale onde o vento não dava folga, com inclinação desafiadora e chuva entrando de frente, pra apimentar o início da prova. A subida seria de quase 10km com o Vulcão Osorno sempre a nossa esquerda (totalmente encoberto no dia), passado algum tempo começamos a perceber que o vento, a chuva e o frio começavava a travar muitas duplas, e conseguímos manter um misto de trote e marcha acelerada na subida, vencendo enfim a maior subida. Um downhill técnico seguido de uma descida leve seguia até o km 20, e ditamos um ritmo bom pra tentar aquecer as pernas depois dos congelantes ventos a 1.250m de altitude.

Aí começava um trecho de subidas e descidas alternadas, sem mistério não fosse pela chuva que fez do barro um enorme lamaçal que atolava até o joelho, mas como não tinha jeito, soca a bota e segue chafurdando na lama e lavando os tênis nos rios que atravessamos, até que no fim de uma subidinha leve saímos da mata fechada e avistamos o camp 1. Mistura de adrenalina e felicidade pela proximidade da chegada, aceleramos o passo e imprimimos um ritmo bem forte, ainda com tempo suficiente de ultrapassar uma dupla argentina que comemorava faltando 1km.

Comemora, pega uma garrafa d’água e acabou a moleza, partiu organizar tudo porque no dia seguinte a batalha continua. Secar o equipamento na churrasqueira, se limpar e trocar de roupa pra almoçar e comemorar a chegada dos amigos!

DIA 2

A noite no camp foi tranquila, os 39km do primeiro dia que viraram 41 trataram de cansar e galera e fazer todo mundo dormir cedo.

Na manhã do dia 2, chuva fina e frio novamente, partimos pro café da manhã e entregamos as bolsas pra serem levadas pro camp 2 e ai veio a hora de vestir o uniforme molhado do dia anterior e descobrir que infelizmente a Leticia sentiu o joelho e teve que abandonar, assim como a Maria Cecilia passou muito mal com hipotermia a noite e foi forçada a desistir da prova.

Mais uma horinha de ônibus e lá fomos nós pra largada do dia 2, mas logo na descida do ônibus a organização avisava que por conta das más condições climáticas não poderíamos subir a montanha, e começou um período confuso onde ninguém sabia ao certo qual seria o trajeto ou a quilometragem. Depois da confusão, o diretor de prova deu o recado que seriam 23km num percurso de ida e volta quase todo plano. Diversos atletas, inclusive nós dois, esvaziavam um pouco o camelback para aliviar o peso já que seriam somente 23km, doce ilusão.

Com a suposta redução do percurso, largamos forte tentando imprimir um bom ritmo e evitar as filas formadas em caso de single track, e já de saída descobrimos que o “quase todo plano” do diretor de prova era subidas e descidas bem acentuadas porém curtas. Passados 20 minutos de prova o vento começou a mudar, e as nuvens de chuva se vão deixando um sol bem forte que castigaria até o final da prova, e com a chegada do km 12 sem nenhuma indicação de retorno começamos a nos preocupar com água e com a real quilometragem do percurso. Por volta do km 15 durante uma descida, lá vinham os atletas da elite subindo forte, o que confirmava a suspeita de que seriam mais do que os 23km anunciados.

O percurso era muito bonito e seguia pela margem de um lago, com a travessia de diversos riachos e um rio grande todos provenientes do degelo das montanhas, e num desses conseguímos abastecer o camelback e voltar pra prova. Num enorme descampado encontramos com a Val e o Thunder que gentilmente me deram um dorflex pra que eu aliviasse a dor que estava me incomodando na perna, e lá seguimos nós 4 em um downhill muito bom por um pasto que nos levaria novamente até a playa.

Mantivemos o ritmo constante e infelizmente no km 25 o Cadu começou a apresentar sintomas de enjoo e desidratação, e as cápsulas de sal que poderiam ajudar haviam caído em algum momento da prova, mas não estavam mais onde deveriam. Entendendo que não daria pra manter o ritmo forte, alternamos entre correr e andar (pra que ele aliviasse a ânsia de vômito) pelos 8km finais até que enfim fechamos a etapa com 34km aos trancos e barrancos.

O camp 2 ainda nos reservava mais surpresas, como uma viagem de 3 horas de ônibus morro acima, sofrida e bem difícil pra quem estava com dores musculares, e mais ainda pra quem estava passando mal. Chegando lá tivemos que usar bem o conceito de dupla, Cadu foi pra tenda médica e eu parti com as malas pra barraca pra tentar adiantar alguma coisa pra podermos jantar e descansar pro terceiro dia, e dentro das possibilidades, tudo funcionou razoavelmente bem e ele foi medicado e apagou.

DIA 3

Após uma noite de muita chuva e frio que castigou o camp 2, partimos pro café com o Cadu já inteiro e encontramos o Guilherme e a Pat, que nos avisaram que haviam abandonado a prova por conta de uma lesão no joelho dela. Tristeza por mais uma dupla de amigos sendo obrigada a abandonar mas estávamos focados e iríamos alinhar para o terceiro dia.

Em meio a um temporal e um frio que castigava, partimos com Dudu e Caula, Val e Thunder pra largada. Chegou a nossa vez e partimos tentando imprimir um ritmo bom no começo plano para nos distanciar da galera que havia largado na mesma onda que nós, para evitar mais uma vez as filas no single track, mas não tinha jeito, depois de poucos kms começava uma subida em single track onde era impossível ultrapassar e no final da primeira subida encontramos com o Dudu retornado com uma expressão de dor, ele nos avisou que o pé machucado e havia desistido da terceira etapa.

Chateados com a notícia seguimos viagem e logo depois o single track viraria um largo caminho de areia vulcânica com inclinações muito acentuadas que se estendia por doloridos 3km. Todos caminhando e nesse momento meu joelho que já vinha incomodando simplesmente travou, e a dor era muito forte, acabei me distanciando um pouco da minha dupla quando fui alcançado pela Val e Thunder novamente, que me ajudaram na subida até que chegasse no Cadu novamente. Chegamos ao cume do vulcão Cazablanca e um downill de quase 2km seguia-se, por onde manquei sem cerimônia até entrarmos numa mata fechada onde a inclinação era menos acentuada e pude voltar a trotar, mesmo com bastante dor.

O Cadu entendendo que não daria pra forçar já que eu tava com muita dor, deixou que eu ditasse o pace pra nossa corrida, e lá fomos nós, eu tentando correr o máximo que conseguia e o cadu seguindo o ritmo e me ajudando sempre que havia alguma descida mais íngreme.

Com bastante dor e levando muito mais tempo do que esperávamos, completamos o terceiro dia e assim vencemos o desafio do Cruce de los Andes.

Indescritível a experiência, o aprendizado e o auto conhecimento que levo na bagagem depois dessa prova, a montanha é soberana e impôs a nós uma condição muito severa de prova, mas como diz wt, quer passear vai pra Disney!

Os vulcões agora foram vencidos, que venham os próximos desafios.”

Parabéns, José!