CRUCE 03: “Rumo aos vulcões invisíveis”

Relato de Carlos Cintra sobre sua participação no Cruce

 

“O El Cruce não é uma prova de corrida e sim uma prova de montanha. Não basta apenas estar bem fisicamente, temos que estar muito bem fisicamente, alguns anos de volume de corrida e uma parte mental igual a de lutador de boxe, tem que aguentar muita pancada para poder sobreviver. Alias sobrevivência na minha visão foi o tema deste Cruce, em momentos que o corpo pede pra parar a cabeça começa a fraquejar a única solução é correr, correr pra o corpo produzir mais calor, para nos esquentar, para poder passar mais rapido por aquele momento difícil.

 

 

 

 

O conhecimento de detalhes da etapa também são importantes, como saber a altitude máxima que passaríamos pelo 1 dia, fez com que tivesse noção de quanto sofrimento precisaria para passar por aqueles momentos de angústia que parecia nunca terminar, quando cheguei a 990m de altitude sabendo que o máximo seria de 1131m acelerei o passo, pois foi a única forma de comunicação possível já que a boca estava congelada e simplesmente não articulava direito, dedos, mãos e rosto na mesma situação, depois começamos a descer e tudo melhorou. Este dia acabou com 15 km de lama, e depois da chegada quando o corpo para o frio vem com força de novo. Esqueci-me de comentar, no alto dos 1131m passávamos pelo colo do vulcão Osorno, mas estava muito nublado e mal víamos a trilha a frente.

 

Na montanha temos que estar preparados pra tudo, mesmo que a organização da prova mude ou diminua o trajeto, ou apareça um solzinho pra animar, vi muita gente jogando agua fora, ou acelerando com força nos primeiros kms do 2 dia porque ouviu falar que a etapa seria de 22k e não de 31 como programado, esqueceram que em montanha não existe plano ou se sobe ou se desce. De novo esqueci-me de comentar passamos por outro vulcão este chamado de Pontiagudo, porém devido a neblina não vimos nada…

 

 

Sei que não é fácil uma montar uma estrutura para uma prova desta magnitude, mas não ter agua nem comida na chegada de uma etapa e depois com transporte de 3 horas num ônibus foi cruel, chegamos no acampamento quase 11h da noite, de novo chuva e frio. Outra coisa valeria um post só pra falarmos do acampamento devido as particularidades do tema.

 

No ultimo dia começou duro com chuva e frio durante toda a noite e na largada, subimos uma pista de ski chamada Antillaca e disseram que tinha um vulcão chamado Casablanca atrás de nós onde deveríamos passar se tivesse bom tempo, mas também não vi, alias neste dia a neblina impedia a visão além de 5/10m a frente. No alto da pista quem fez solo disse que tinha uma cratera, a organização chama aquela passagem de El Crater, também não via nada. A descida é alucinante parecendo como uma duna gigante de areia grossa e pedrinhas pretas (vulcânicas), que dava pra descer com velocidade, alias esta velocidade nos empolgou e entramos na floresta onde tinham single-tracks estreitos por toda a descida acelerando sempre e pedindo “permiso” pros Hermanos. Lembrei muito dos treinos do Walter em correr com joelhos levantados foram fundamentais neste dia com charcos e lama. Acabou o dia com 20km e sensação de quero mais.

 

 

Apesar da chuva, frio, neblina, roupa molhadas, fedidas, muito perrengue entre outras coisa chatas, nada me tirou o humor e aproveitei cada momento da prova. A escolha do parceiro no caso de duplas também é um ponto importante, pois ajuda muito nestas horas de aporrinhação, saber que não é só você que esta sofrendo, pois numa prova de 100km em 3 dias o sofrimento faz parte, ter uma cabeça boa e poder compartilhar com amigos melhora tudo. Valeu Xande Primo.”

 

Parabéns Cintra!